A liberdade, sim a liberdade!    images7

A verdadeira liberdade!

Pensar sem desejos nem convicções,

Ser dono de si mesmo sem influência de romances!

Existir sem Freud nem aeroplanos,

Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem cansaço!

A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais

A liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!

Como o luar quando as nuvens abrem

A grande liberdade cristã da minha infância que rezava

Estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim…

A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente,

A noção jurídica da alma dos outros como humana,

A alegria de ter estas coisas, e poder outra vez

Gozar os campos sem referência a coisa nenhuma

E beber água como se fosse todos os vinhos do mundo!

 

Passos todos passinhos de criança…

Sorriso da velha bondosa…

Apertar da mão do amigo sério…

Que vida que tem sido a minha!

Quanto tempo me espera no apeadeiro!

Quanto viver pintado em impresso da vida!

 

Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade,

Dêem-na no púcaro velho de ao pé do pote

Da casa do campo da minha velha infância…

Eu bebia e ele chiava,

Eu era fresco e ele era fresco,

E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre.

Que é do púcaro e da inocência?

Que é de quem eu deveria ter sido?

E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim?

17.08.1930

 

Álvaro de Campos, Poesia, edição de Teresa Rita Lopes, 2002

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