Momento Poético

A Invenção da Água

Como muito bem se sabe, no princípio não havia água.mário_henrique_leiria

Só havia o verbo.

Depois apareceram o sujeito e o complemento direto.

Mas de água, nada.

Então todos começaram a beber vinho e deus achou que era bom.

E lá isso era!

No entanto, com o aparecimento das primeiras culturas

do tipo comercial, tornou-se evidente

a falta de qualquer coisa

que pudesse aumentar a produção do vinho

e torná-lo mais rentável.

Era a água, claro.

Mas não havia água, como já fizemos notar.

As primeiras pesquisas,

então ainda bastante primitivas,

levaram à descoberta da água-pé.

Embora curiosa, essa descoberta não resolveu,

de forma alguma, o fim pretendido.

Continuava a não haver água. As pesquisas prosseguiram.

Felizmente o homem é assim, nunca desiste.

É isso que faz o progresso.

E largos tempos passados chegou-se a nova descoberta:

a aguardente.

Era melhor, não duvidemos, mas realmente não era o desejado.

Faltava a água. Definitivamente.

As civilizações pastoris, no seu nomadismo constante,

descobriram, acidentalmente, a água-bórica que,

aliás, nunca serviu para nada. Coisas de nómades.

Foi então que no seio das culturas orientais

mais avançadas tecnologicamente,

surgiu a grande invenção:

um misterioso pó branco que,

deitado em mínima quantidade num litro de água,

o convertia,

quase milagrosamente,

num litro de água.

ESTAVA INVENTADA A ÁGUA

Inicialmente rara e só usada para fazer vinho,

tornou-se no entanto com o desenvolvimento industrial,

bastante acessível e abundante.

Ergueram-se os primeiros lagos,

deu-se início aos rios pequeninos e,

finalmente surgiram os rios maiores,

aqueles muito grandes,

que consta várias pessoas já terem visto por aí.

Este progressivo desenvolvimento líquido

teve como consequência

o aparecimento de poderosas civilizações marítimas,

que se desenvolveram de tal maneira que nos puseram

no brilhante estado em que nos encontramos.

É o que fazem as invenções.

No entanto, e mesmo com a actual abundância,

não devemos abusar, dada a tremenda

explosão demográfica que se está registando.

Parece-nos mais prudente beber gin. Sempre.

Mário Henrique Leiria

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